
Presidente da CEAST encerra a IV Jornada Nacional da Juventude com um apelo à coragem, à vigilância e ao compromisso dos jovens na transformação de Angola
“Não deixeis que vos roubem a esperança.” Foi com este apelo, repetido por toda a multidão de jovens — entre eles, muitos dos nossos escuteiros e escuteiras —, que Dom José Manuel Imbamba, Arcebispo Metropolitano de Saurimo e Presidente da Conferência Episcopal de Angola e São Tomé (CEAST), marcou um dos momentos mais fortes da homilia da Missa de encerramento da IV Jornada Nacional da Juventude Católica, celebrada no adro da Paróquia de Nossa Senhora de Fátima, em Luanda. Para a nossa família escutista, que participou de forma numerosa nesta Jornada, as palavras de Dom Imbamba chegam como um autêntico prolongamento da nossa própria missão: Sempre Alerta para Servir.
Perante jovens vindos de diferentes Dioceses do país, o Presidente da CEAST não escondeu as dificuldades que atravessam a juventude angolana — os vazios existenciais, sociais, profissionais e culturais, a falta de perspectivas, a delinquência, a toxicodependência, a emigração. Mas recusou, com firmeza, que estas dificuldades tenham a última palavra. “É precisamente no meio destas dificuldades gravíssimas que Jesus Cristo vos diz: ‘Tende coragem'”, afirmou. A mensagem atravessou praticamente toda a homilia: a fé cristã não deve retirar os jovens da realidade — deve dar-lhes força para nela entrarem e a transformarem. “Por isso somos luz, por isso somos sal, por isso somos fermento”, disse Dom Imbamba.
“A esperança é o motor da vossa juventude”
Ao encerrar a Jornada, o Arcebispo de Saurimo propôs aos participantes vários compromissos para levarem consigo de Luanda, e para fazerem “florir” nas famílias, escolas, universidades, bairros e grupos de amizade.
O primeiro foi a esperança. Dom Imbamba recuperou uma exortação feita pelo Papa Bento XVI aos jovens, durante a visita apostólica a Angola, em Março de 2009 — “Não deixeis que vos roubem a esperança” — e pediu à multidão que a repetisse. Para o Presidente da CEAST, a esperança é “o motor” da juventude, e deve impedir que os jovens se resignem perante as dificuldades. “Não vos deixeis vencer pelo desânimo, nem pela ilusão de que nada vai mudar”, exortou, recordando-lhes que possuem capacidades, talentos e inteligência que devem ser colocados ao serviço da transformação da sociedade. Um desafio, de resto, muito próximo da própria pedagogia escutista: não esperar passivamente que outros construam o futuro, mas preparar-se para participar activamente na sua construção.
“O jovem não deve viver de saudades. O jovem deve viver de sonhos”
O segundo compromisso apresentado foi a vigilância. Dom Imbamba advertiu os jovens contra aquilo que classificou como “venenos ideológicos e culturais”, desprovidos de ética, princípios e valores, capazes de conduzir à superficialidade, à banalização da vida, ao ócio, à droga, ao alcoolismo e a outras realidades que destroem a liberdade e a esperança. Chamou também a atenção para a influência das redes sociais e dos discursos da moda — nem tudo aquilo que ganha visibilidade ou aprovação no espaço digital contribui, necessariamente, para a dignidade da pessoa humana. Por isso, pediu discernimento, deixando uma das frases mais fortes da homilia: “O jovem não deve viver de saudades. O jovem deve viver de sonhos.”
Para Dom Imbamba, há jovens que envelhecem antes do tempo — não pela idade, mas porque deixam de olhar para diante. Quando o futuro desaparece do horizonte, e tudo o que resta é a nostalgia do passado, a própria juventude começa a perder uma das suas características fundamentais: a capacidade de sonhar. “Nós somos o amanhã”, afirmou.
Aos jovens na política: servir, e não fazer dela “um balcão de negócios”
A homilia entrou depois num território particularmente concreto. Dom Imbamba dirigiu uma palavra especial aos jovens com vocação para a política e aos que já participam activamente nela: que a compreendam como uma missão nobre de serviço à Nação, e nunca como um instrumento de enriquecimento, autopromoção ou opressão. Nas suas palavras, a política deve ser vivida como serviço aos ideais mais elevados da Nação, “e nunca como um balcão de negócios“. Advertiu ainda contra a partidarização das relações humanas — as diferenças políticas não devem destruir amizades, nem transformar cidadãos com opiniões diferentes em inimigos; os partidos devem ser instrumentos para a prossecução do bem comum, e não problemas para a Nação.
“Na Igreja cabemos todos”
Foi neste contexto que Dom Imbamba alargou a mensagem à fraternidade. A Igreja, afirmou, “não é um clube privado de amigos” — nela devem caber pessoas diferentes, com opiniões distintas, unidas por uma identidade que ultrapassa as divergências. “Na Igreja, a nossa bandeira é o amor, é a fraternidade“, disse. A diversidade de opiniões não deve impedir os angolanos de se reconhecerem como membros de uma única família, uma única Nação, uma única Angola. Para o Presidente da CEAST, a violência e o ódio não oferecem respostas duradouras aos problemas da sociedade — o caminho cristão há-de ser outro: respeito mútuo, acolhimento, convivência, fraternidade e defesa da dignidade humana.
A pessoa humana no centro
A reflexão conduziu Dom Imbamba à Doutrina Social da Igreja. Evocando esta tradição, insistiu que qualquer projecto político, económico ou social deve começar e terminar na pessoa humana: “A pessoa humana é o pólo de partida e o pólo de chegada.” Uma sociedade não pode considerar-se verdadeiramente desenvolvida se as suas estruturas deixarem de servir a dignidade da pessoa. É também por isso, segundo Dom Imbamba, que a violência e o ódio não constroem nada — a construção de uma Nação forte exige cidadãos capazes de substituir a hostilidade pelo respeito, e a divisão pela capacidade de convivência.
Aos jovens, pediu que despertassem o “génio criativo e pacífico” que existe dentro de cada um, embelezando o tecido social angolano através de atitudes de elevado civismo e patriotismo.
“Colocai Cristo no centro da vossa vida”
Por detrás de todos estes compromissos, Dom Imbamba colocou uma referência maior: Jesus Cristo. Não basta que o jovem cristão reproduza aquilo que encontra à sua volta — é chamado a ser diferente, precisamente porque possui uma referência diferente. “Colocai Cristo no centro da vossa vida”, disse, recordando-o como a maior referência inspiradora para a renovação de vida de cada jovem.
Esta dimensão assume um significado particular para os Escuteiros Católicos de Angola, que participaram de forma numerosa nesta IV Jornada. No Escutismo Católico, formar o carácter, educar para o serviço, desenvolver autonomia, cultivar a fraternidade e assumir responsabilidades não são caminhos separados da fé — encontram, precisamente, em Cristo a sua referência maior. Ser “Sempre Alerta para Servir” ganha, assim, uma exigência adicional: servir como cristão, fazendo do próprio testemunho uma forma de transformar o ambiente onde se vive.
Não responder ao mal com o mal
Outro dos momentos fortes da homilia surgiu quando Dom Imbamba evocou a Primeira Carta de São Pedro. Aos jovens pediu unidade de sentimentos, compaixão, amor fraterno, misericórdia e humildade, deixando-lhes um princípio particularmente exigente: não pagar o mal com o mal, nem a injúria com a injúria. O cristão, insistiu, é chamado a abençoar — e a bênção recebida de Deus deve transformar-se em bênção para as famílias, para a sociedade e para a própria Igreja. Talvez seja esta uma das dimensões mais difíceis da coragem cristã proposta na celebração: ser firme sem se tornar violento; discordar sem odiar; sofrer uma ofensa sem fazer da vingança um projecto de vida.
Da Jornada para “todos os cantos e recantos” de Angola
A IV Jornada Nacional da Juventude não terminou, na perspectiva de Dom Imbamba, com a Missa de encerramento — a celebração representou, antes, o momento de envio. Os participantes foram convidados a levar aquilo que viveram para todos os cantos e recantos de Angola, e também para o mundo. A experiência vivida em Luanda deverá agora chegar às famílias, escolas, universidades, bairros, paróquias, movimentos juvenis e grupos de amizade — e, para nós, Escuteiros Católicos, deverá chegar também aos nossos Agrupamentos, Secções, Patrulhas e Equipas. Uma Jornada só produz verdadeiramente frutos quando aquilo que foi ouvido começa a modificar aquilo que fazemos depois de regressarmos a casa. É aí que se mede a passagem do entusiasmo à transformação.
“Sede corajosos”
Dom Imbamba terminou devolvendo aos jovens a palavra que atravessou toda a homilia: coragem. Não a coragem de quem não sente medo, nem a ilusão de que a vida será fácil — mas a coragem de quem reconhece as dificuldades e decide não permitir que elas lhe roubem a esperança. Aos participantes, pediu que sejam testemunhas do amor através da prática, da vivência e da partilha, confiando-os, por fim, à protecção de Nossa Senhora da Muxima, para que os acompanhe e guie no regresso às respectivas Dioceses.
A Jornada terminou em Luanda. Mas cada jovem regressa agora com uma pergunta que nenhuma cerimónia de encerramento pode responder por ele: o que farei, na minha família, na minha escola, no meu Agrupamento, na minha comunidade e no meu país, com aquilo que recebi nestes dias?
Para os Escuteiros Católicos de Angola, a resposta encontra-se também naquilo que prometemos ser: luz onde houver escuridão; fermento capaz de transformar por dentro; jovens que não vivem apenas de saudades, mas de sonhos; e cristãos que não permitem que lhes roubem a esperança.
Sempre alerta para servir!
Autor: Alexandre Cose | Leão Manso



