
TEXTO – Alexandre Cose | Leão Manso
IMAGEM – Vatican News / AECA
Na grande missa deste Domingo, na Centralidade do Kilamba, o Papa Leão XIV deixou uma homilia profunda, forte e muito próxima da realidade de Angola. Foi uma palavra espiritual, sim, mas também muito concreta, muito humana e muito exigente. Uma homilia que fala à Igreja, às famílias, aos jovens e, de modo muito especial, também a nós, escuteiros católicos.
O Santo Padre começou por olhar para o Evangelho dos discípulos de Emaús. Aqueles dois homens caminhavam tristes, desanimados, com o coração ferido, depois de terem visto morrer Jesus. Iam a conversar sobre tudo o que tinha acontecido, mas já sem esperança. E foi precisamente aí que o Papa encontrou uma imagem muito forte para falar de Angola.
Ele disse: “Nesta primeira cena do Evangelho, vejo reflectida a história de Angola, deste país belíssimo e ferido, que tem fome e sede de esperança, de paz e de fraternidade.”
Estas palavras tocaram fundo. Porque o Papa reconheceu a beleza do nosso país, mas também reconheceu as feridas da nossa história. Falou da longa guerra civil, das divisões, da pobreza, do sofrimento e do risco de um povo ficar preso à dor e ao desânimo. Tal como os discípulos de Emaús, também um país pode continuar a caminhar, mas sem saber como recomeçar.
Mas a grande mensagem da homilia não foi o desânimo. Foi a esperança. E essa esperança tem nome: Jesus Cristo, vivo e ressuscitado.
O Papa disse com clareza: “A boa nova do Senhor, hoje também para nós, é precisamente esta: Ele está vivo, ressuscitou e caminha ao nosso lado.”
Aqui está o centro de tudo. O Senhor não abandona o seu povo. Caminha connosco. Caminha com Angola. Caminha com quem sofre. Caminha com quem luta. Caminha com quem serve. E é precisamente essa certeza que nos dá força para continuar.
O Santo Padre explicou que Jesus se aproximou dos discípulos, caminhou com eles, escutou-os, ajudou-os a compreender o que tinham vivido e mostrou-lhes que não estavam sozinhos. Depois, ao partir o pão, os olhos deles abriram-se e reconheceram o Senhor.
E foi a partir deste gesto que o Papa traçou um caminho para todos nós. Disse que também Angola precisa de recomeçar assim: com a certeza de que Deus caminha com o seu povo, e com o compromisso de cada um em viver como “pão partido” para os outros.
O Santo Padre insistiu muito em dois pilares essenciais: a Palavra de Deus e a Eucaristia. Explicou que é aí que encontramos verdadeiramente o Senhor. E deixou um alerta muito importante, especialmente num tempo em que muitas pessoas confundem fé com superstição ou misturam a experiência cristã com práticas que não ajudam no verdadeiro caminho espiritual.
Ele disse: “Permanecei fiéis ao que a Igreja ensina. Confiai nos vossos pastores e mantende o olhar fixo em Jesus.”
Para os escuteiros católicos, esta palavra é muito importante. Porque o escutismo católico não vive de uma fé vaga ou confusa. Vive de uma fé concreta, eclesial, fiel à Igreja, enraizada no Evangelho, na oração, nos sacramentos e na vida comunitária.
Mas o Papa foi ainda mais longe. Ele disse que reconhecer Jesus no pão partido não é apenas reconhecê-lo na missa. É também reconhecê-lo em toda a vida que se dá, em toda a pessoa que se faz dom, em todo o gesto de compaixão.
Disse assim: “Devemos reconhecê-lo não apenas na Eucaristia, mas em qualquer lugar onde haja uma vida que se torna pão partido.”
Ora, isto toca muito directamente o espírito escutista. Porque ser escuteiro é exactamente isto: estar disponível, gastar-se, servir, aliviar o sofrimento, organizar, apoiar, orientar, proteger, animar, construir fraternidade. Em linguagem simples: ser pão partido para os outros.

A homilia do Papa trouxe também um grande apelo à missão da Igreja em Angola. O Santo Padre afirmou que a história do país, as suas dificuldades sociais e económicas, e as muitas formas de pobreza, exigem uma Igreja próxima, que saiba caminhar com o povo, ouvir o clamor dos seus filhos e reacender a esperança.
Disse: “Angola precisa de uma Igreja que saiba estar próxima no caminho e saiba ouvir o clamor dos seus filhos.”
E quando o Papa fala da Igreja, fala de bispos, sacerdotes, religiosas, missionários, leigos… mas fala também de nós. Porque nós somos Igreja. Nós, escuteiros católicos, também somos esta presença próxima. Estamos nas paróquias, nos bairros, nas comunidades, nas escolas, nos campos, nas peregrinações, nas grandes celebrações e também nas pequenas lutas do dia-a-dia.
Depois, o Santo Padre fez um apelo muito forte a todos os que têm responsabilidade na Igreja e na sociedade. Disse que Angola precisa de homens e mulheres que tenham no coração o desejo de partir a própria vida pelos outros, de construir a paz, de promover o perdão e de fazer gestos concretos de solidariedade.
Estas palavras servem perfeitamente para os dirigentes, assistentes, caminheiros e seniores. Porque o Papa está a dizer-nos que o futuro de Angola não se constrói com egoísmo, nem com divisões, nem com vaidade. Constrói-se com doação, com serviço e com espírito de fraternidade.
Outro ponto muito importante da homilia foi quando o Papa falou da necessidade de curar as divisões antigas e de vencer o ódio, a violência e a corrupção. Não foi uma referência lateral. Foi uma palavra clara.
Ele disse: “Queremos construir um país onde as antigas divisões sejam superadas para sempre, onde o ódio e a violência desapareçam, onde a chaga da corrupção seja curada por uma nova cultura de justiça e partilha.”
Aqui está uma palavra muito séria. O Papa não se limitou a consolar. Também chamou à responsabilidade. E isso é muito importante. Porque a fé cristã não serve para fugir da realidade. Serve para a transformar.
E ligou tudo isto aos jovens. Disse que só assim será possível oferecer um futuro de esperança, especialmente aos muitos jovens que a perderam.
Esta passagem fala directamente ao escutismo. Porque uma grande parte da nossa missão é precisamente esta: ajudar os jovens a não perderem a esperança. Formar rapazes e raparigas com valores, com disciplina, com fé, com sentido de pátria, com espírito de serviço, com amor à verdade, com coragem para construir um mundo melhor.
O Papa disse também: “Não tenhais medo de olhar para o futuro com esperança e de construir a esperança de um futuro.”

Esta é, talvez, uma das frases mais bonitas e mais mobilizadoras de toda a homilia. O Santo Padre não veio dizer a Angola para baixar os braços. Veio dizer o contrário: levantai-vos, recomeçai, caminhai, tende coragem.
E mais: afirmou que Jesus ressuscitado encoraja os angolanos a serem “testemunhas da sua ressurreição e protagonistas de uma nova humanidade e de uma nova sociedade”.
Para um escuteiro, isto é fortíssimo. Porque o escutismo não forma apenas participantes. Forma protagonistas. Gente que não fica à espera. Gente que age. Gente que toma responsabilidade. Gente que faz a sua parte.
No final, o Papa deixou uma palavra de proximidade muito bonita. Disse que podem contar com a oração dele e que ele também conta com a oração do povo angolano. E confiou Angola à protecção de Nossa Senhora da Muxima, pedindo que ela sustente o povo “na fé, na esperança e na caridade”.
Esta referência a Nossa Senhora da Muxima tem também um peso especial para nós. Porque a Muxima é um lugar muito querido no coração dos angolanos e no coração dos escuteiros. É lugar de caminhada, de peregrinação, de silêncio, de serviço, de fé simples e profunda.
Em resumo, a homilia do Papa Leão XIV no Kilamba foi uma chamada clara a Angola para recomeçar com Cristo, sem medo, sem se deixar prender pelas feridas do passado, sem cair no desânimo, e com coragem para construir fraternidade, justiça e paz.
Para os escuteiros católicos de Angola, fica um programa de vida muito concreto:
reconhecer Cristo na Palavra e na Eucaristia;
viver uma fé limpa, fiel à Igreja;
tornar-se pão partido para os outros;
servir com compaixão;
ajudar a curar divisões;
combater o desânimo com esperança;
e trabalhar para que os jovens voltem a acreditar no futuro.
O Papa falou a toda Angola.
Mas muitos de nós, escuteiros, sentimos que também falou directamente connosco.
Porque, no fundo, esta homilia lembra-nos uma verdade essencial:
o país precisa de gente que caminhe com os outros, que parta a vida pelos outros e que reacenda a esperança.
E esse é, precisamente, o caminho do verdadeiro escuteiro.












