
TEXTO – Alexandre Cose | Leão Manso
No âmbito da sua visita apostólica à província da Lunda-Sul, nesta Segunda-Feira, 20 de Abril de 2026, Sua Santidade o Papa Leão XIV presidiu à celebração eucarística na cidade de Saurimo, onde dirigiu ao povo de Deus, uma homilia profundamente enraizada no Evangelho, com forte densidade pastoral e espiritual, na qual convidou os fiéis a redescobrirem o sentido autêntico da fé cristã e a orientarem a sua vida para Cristo, “pão vivo que dá a vida eterna”.
Partindo da Palavra proclamada, o Santo Padre recordou que a Igreja, em todo o mundo, caminha como povo peregrino, iluminado pela Ressurreição de Cristo:
“Em todas as partes do mundo, a Igreja vive como povo que caminha no seguimento de Cristo, nosso irmão e Redentor. Ele, o Ressuscitado, ilumina-nos a via para o Pai e santifica-nos com a força do Espírito.”
Num dos eixos centrais da sua reflexão, o Papa alertou para o risco de uma relação com Deus marcada por interesses imediatos e utilitários, evocando a atitude da multidão no Evangelho:
“Vós procurais-me, não por terdes visto sinais, mas porque comestes dos pães e vos saciastes.”
Com estas palavras, Leão XIV denunciou uma compreensão distorcida da fé, na qual Cristo é reduzido a instrumento:
“A multidão vê Jesus como um prestador de serviços… não procura um mestre a quem amar, mas um líder a reverenciar por interesse.”
E advertiu, com particular clareza:
“Quando a fé autêntica é substituída por um comércio supersticioso, Deus torna-se um ídolo que se procura apenas quando nos serve.”
CHAMADOS À LIBERDADE E À CONVERSÃO
Apesar desta realidade, o Santo Padre sublinhou que Cristo não rejeita o ser humano, mas convida-o à conversão interior:
“Ele não manda embora a multidão, mas convida a todos a examinar o que palpita no nosso coração.”
E acrescentou:
“Cristo chama-nos à liberdade. Não quer servos, nem clientes, mas irmãos e irmãs a quem se dedicar com todo o seu ser.”
Do ouvir ao seguir: o caminho do discípulo
O Papa explicou que a fé verdadeira exige mais do que escuta ou admiração exterior:
“Não basta ouvir falar de Jesus… é preciso seguir e imitar a sua iniciativa.”
No sinal do pão partilhado, revelou-se o sentido mais profundo da missão de Cristo:
“Quando vemos o pão partilhado, vemos a vontade do Salvador que se dá a si mesmo por nós.”
O verdadeiro alimento que sustenta a vida
No centro da homilia, ecoou o apelo evangélico:
“Trabalhai não pelo alimento que desaparece, mas pelo alimento que perdura e dá a vida eterna.”
O Santo Padre esclareceu que Cristo não nega as necessidades materiais, mas orienta o coração humano para o essencial:
“Jesus não nos dá um alimento que acaba, mas um pão que não nos deixa acabar, porque é alimento de vida eterna.”
UMA LEITURA EVANGÉLICA DAS FERIDAS DO MUNDO
Relacionando a Palavra com a realidade contemporânea, o Papa denunciou as injustiças que continuam a ferir a dignidade humana:
“Hoje vemos que muitos desejos das pessoas são frustrados pelos violentos, explorados pelos prepotentes e enganados pela riqueza.”
E acrescentou:
“Quando a injustiça corrompe os corações, o pão de todos torna-se propriedade de poucos.”
Perante tais desafios, reafirmou a presença consoladora e activa de Cristo na história:
“Em cada queda, Ele levanta-nos. Em cada sofrimento, conforta-nos. Na missão, encoraja-nos.”
O Santo Padre destacou a centralidade da Eucaristia como alimento que transforma e sustenta a vida cristã:
“A Eucaristia remove o fim da nossa história, porque Cristo vive. Ele é o nosso Redentor.”
E recordou que a Ressurreição de Cristo é fundamento da verdadeira liberdade:
“Não viemos ao mundo para morrer… toda a forma de opressão e violência nega a ressurreição de Cristo.”
Respondendo à pergunta fundamental do Evangelho, afirmou:
“A obra de Deus é esta: crer naquele que Ele enviou.”
Uma fé que se traduz em compromisso concreto:
“Queremos seguir-vos e servir-vos no nosso próximo.”
Uma Igreja sinodal, missionária e testemunhal
Dirigindo-se à Igreja em Angola, o Papa Leão XIV indicou o caminho de uma comunhão activa e missionária:
“O caminho eclesial é sempre um sínodo de ressurreição e de esperança.”
E reforçou:
“A Igreja anuncia o Evangelho não só com palavras, mas com o testemunho de vida.”
Concluindo a sua homilia, o Santo Padre lançou um apelo claro ao serviço comprometido com o bem comum:
“Somos chamados a servir o nosso povo com uma dedicação que levanta de todas as quedas, reconstrói o que a violência arruína e partilha com alegria os vínculos fraternos.”
Evocando o testemunho dos mártires e dos santos, encorajou o povo angolano a perseverar no caminho da reconciliação:
“O testemunho dos santos impele-nos a um caminho de esperança, de reconciliação e de paz.”
Por fim, deixou uma palavra de confiança e consolação:
“O caminho que Deus abriu para nós nunca desilude. O Senhor caminha sempre ao nosso lado.”
Esta homilia, proclamada em Saurimo, constitui um forte apelo à purificação das motivações da fé, à redescoberta de Cristo como centro da vida e ao compromisso efectivo na construção de uma sociedade mais justa, reconciliada e aberta à esperança, à luz do Evangelho.



