
Na Paróquia de Nossa Senhora de Fátima, em Luanda, a 20 de Abril, no quadro do último encontro da sua visita apostólica a Angola, Sua Santidade Papa Leão XIV dirigiu à Igreja angolana uma intervenção de forte densidade pastoral, marcada por um tom simultaneamente paterno, exigente e profundamente encorajador.
Perante bispos, sacerdotes, consagrados, catequistas e fiéis, o Santo Padre começou por reconhecer, com gratidão sincera, o trabalho realizado ao longo dos anos na missão evangelizadora do país. “Obrigado pelo trabalho de evangelização realizado neste país, pela esperança de Cristo semeada no coração do povo, pela caridade para com os mais pobres”, afirmou, colocando no centro da sua mensagem o valor da fidelidade silenciosa e perseverante.
A partir deste reconhecimento, o Papa lançou um apelo claro e directo à entrega total a Cristo, desafiando todos a uma fé sem reservas: “Não tenhais medo de dizer sim a Cristo… Ele não tira nada. Ele dá tudo.” Nesta afirmação, condensou uma das ideias centrais da sua intervenção: a confiança absoluta em Deus como fundamento da vocação e da missão.
Dirigindo-se de modo particular aos jovens e aos que se encontram em caminho vocacional, insistiu na coragem de abraçar o futuro com fé: “Não tenhais medo de amanhã. Pertenceis totalmente ao Senhor.” A sua palavra procurou dissipar hesitações e fortalecer decisões, num contexto em que muitos são chamados a escolher caminhos exigentes de consagração e serviço.
O Santo Padre aprofundou ainda a identidade do cristão, recordando que a vida só encontra pleno sentido na pertença a Cristo: “Tudo é vosso, mas vós sois de Cristo.” Esta afirmação abriu caminho a uma reflexão mais ampla sobre a responsabilidade dos fiéis na construção da sociedade, sublinhando que todos são chamados a contribuir para uma Angola mais justa, reconciliada e fraterna, à luz da caridade cristã.
Num dos momentos mais marcantes, o Papa Leão XIV destacou o papel fundamental dos catequistas, particularmente no contexto africano, reconhecendo neles uma verdadeira espinha dorsal da vida eclesial: homens e mulheres que sustentam a fé das comunidades, muitas vezes em condições difíceis, e que devem ser valorizados e acompanhados.

A intervenção do Santo Padre trouxe também um forte apelo à formação permanente, entendida não apenas como aquisição de conhecimentos, mas como caminho de crescimento integral. “Conhecer Cristo passa por uma boa formação, mas também pela vida interior, pela oração, pela contemplação”, indicou, advertindo contra o risco de reduzir a fé a uma dimensão apenas funcional ou institucional.
Com grande clareza, exortou os agentes pastorais à coerência de vida e à unidade, afirmando: “Não vos separeis do povo, especialmente dos pobres.” Ao mesmo tempo, alertou contra perigos concretos do tempo presente, como a busca de privilégios, a autorreferencialidade e o distanciamento das realidades mais sofridas, recordando que o verdadeiro discípulo é chamado a ser servo de todos.
Num olhar atento à história recente de Angola, o Papa reconheceu o papel da Igreja na promoção da paz, sobretudo em tempos de conflito, mas sublinhou que essa missão permanece actual: “Este trabalho não acabou.” Por isso, apelou à construção de uma “memória reconciliada”, capaz de curar feridas e consolidar uma cultura de paz duradoura.
Retomando o pensamento de São Paulo VI, reafirmou que “o desenvolvimento é o novo nome da paz”, incentivando a Igreja a continuar o seu contributo nas áreas da educação, da saúde e da promoção humana integral, como expressão concreta do Evangelho vivido.
Na parte final da sua intervenção, o Santo Padre elevou o olhar para o horizonte espiritual da missão, recordando que cada Eucaristia é fonte de entrega e renovação: os fiéis são chamados a tornar-se “corpo entregue e sangue derramado pela vida dos irmãos”, numa clara identificação com Cristo.
A sua mensagem encerrou com uma nota de esperança e confiança, confiando a Igreja em Angola à protecção da Virgem Maria, Mamã Muxima, e reafirmando a certeza de que Deus acompanha e faz frutificar o esforço daqueles que se entregam com sinceridade à missão.
Para os Escuteiros Católicos de Angola, esta intervenção representa um verdadeiro roteiro de vida: fidelidade a Cristo, serviço ao próximo, coragem diante dos desafios e compromisso activo na construção de uma sociedade mais justa e fraterna.
Alexandre Cose | Leão Manso



