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CHEFE CATARINA JORDÃO SALES: 31 ANOS DE SERVIÇO ESCUTISTA E UM “REENCONTRO” MARCANTE NO ADRO 2026

Dirigente do Agrupamento n.º 3 – Nossa Senhora de Fátima (Sé Catedral), Diocese de Benguela, a Chefe Catarina viveu o ADRO 2026 como tempo de renovação e compromisso. Entre memórias de desafios pastorais, defesa da assistência espiritual e a inesperada Profissão de Fé que marcou a sua passagem pelo encontro, a dirigente reafirma que o futuro do Escutismo Católico passa por presença sacerdotal, formação sólida e liderança que sabe aproximar-se dos jovens para os conduzir sem medo.

Texto – Alexandre Cose | Leão Manso

Com quase 31 anos de militância escutista, a Chefe Catarina Jordão Salupassa, do Agrupamento n.º 3 – Nossa Senhora de Fátima (Sé Catedral), Diocese de Benguela, foi uma das dirigentes que viveram o ADRO 2026 como um verdadeiro tempo de renovação, cura e reposicionamento espiritual do Escutismo Católico em Angola.

Em conversa realizada no final do encontro, a dirigente apresentou-se com a sobriedade de quem carrega experiência: entrou no movimento já como dirigente, mantendo-se desde então ligada sobretudo ao acompanhamento dos caminheiros — a secção que muitos consideram “a mais exigente” pela maturidade, personalidade forte e fase de descoberta em que os jovens se encontram.

Um percurso longo, com pausas e regresso por vocação

A Chefe Catarina reconhece que, apesar da constância do seu vínculo ao movimento, passou por um período de pausa: esteve no “passivo” durante cerca de quatro a cinco anos, retomando com firmeza a partir de 2019.

O que a fez voltar?

Segundo a própria, foi um apelo interior difícil de ignorar: o carisma de ser escuteira e a vontade de lidar com jovens, mantendo-se activa na missão educativa e formativa. Antes de se reencontrar com o Escutismo, Catarina já trabalhava na Comissão da Juventude, um espaço que considera determinante no seu percurso.

É também nesse período que surge uma memória com peso simbólico: na altura, Dom Belmiro (hoje bispo e uma das principais referências da pastoral escutista), era então assistente naquele contexto, como diácono em São João do Lobito. A ligação entre juventude, Igreja e Escutismo aparece, assim, como eixo fundador da sua caminhada.

“Os caminheiros são os mais difíceis” — e por isso os mais decisivos

Ao longo da conversa, a Chefe Catarina confirmou aquilo que muitos dirigentes testemunham: caminheiros são exigentes, não apenas por questões disciplinares, mas por atravessarem uma fase sensível — de afirmação pessoal, escolhas, rebeldias próprias da idade, e procura de identidade.

Mesmo assim, ela afirma que é possível conduzi-los com inteligência pastoral e proximidade humana.

O seu método é simples, mas cheio de significado educativo: por vezes, para os ganhar, ela “desce” ao terreno deles.

“Às vezes deixo de ser dirigente e torno-me caminheira.”

Ou seja: aproxima-se, entra no ritmo, compreende o universo do jovem, participa dos “truques” e dinâmicas — não para perder autoridade, mas para conquistar confiança. A partir daí, o jovem responde.

Para Catarina, a disciplina escutista com caminheiros não pode ser apenas “ordem”: precisa ser relação, presença, escuta, e uma autoridade que nasce da convivência.

Um “trauma” em Benguela e a ferida da falta de assistência

Um dos pontos mais importantes do testemunho da Chefe Catarina surge quando ela explica por que Benguela enfrentou dificuldades para se adaptar a dinâmicas mais recentes do movimento.

Segundo relata, houve um tempo em que se perdeu credibilidade e sintonia, e ela identifica um factor com clareza: a ausência de assistência espiritual.

A dirigente recorda um episódio que, para si, foi marcante e doloroso — ao ponto de chamar-lhe “trauma”. Na época, enquanto coordenadora do núcleo em Benguela (Núcleo 1), participou numa actividade em que foi solicitado aos católicos que animassem um culto. Ela e a sua equipa procuraram conduzir o momento como conduzem uma celebração católica, mas foram interrompidos com a indicação de que “não era assim”.

A situação deixou-lhe uma sensação de desconforto e incoerência:

  • não se pode pedir a um católico que anime um culto fora da sua lógica litúrgica,
  • e depois censurá-lo por fazê-lo com linguagem e prática católicas.

O episódio, no entanto, gerou um passo positivo: ela procurou os padres, pediu presença, e a actividade passou a ter missas, o que reequilibrou o sentido e a identidade do grupo.

Esse ponto liga-se directamente à mensagem central repetida ao longo do ADRO 2026: sem assistência, o movimento fragiliza-se; com assistência, reencontra-se.

Por isso, Catarina disse ter ficado particularmente satisfeita com a intervenção recente de Dom Belmiro — que apelou de modo firme à participação dos assistentes espirituais e ao acompanhamento real do movimento nas dioceses.

O MOMENTO INESPERADO: “Pensei que tivesse feito algum problema”

Se o ADRO 2026 foi uma experiência marcante para muitos, para a Chefe Catarina houve um instante que se tornou, para ela, o ponto mais alto pessoal: a Profissão de Fé e a troca simbólica do lenço, passando a usar o lenço verde destinado aos dirigentes no quadro dos Escuteiros Católicos.

O detalhe mais humano é o modo como ela viveu a surpresa.

Quando foi chamada, não entendeu o motivo. Chegou a pensar que poderia tratar-se de algum problema ou advertência. Só depois percebeu que era uma homenagem/gesto espiritual e institucional:

“Foi o momento mais alto… o mais marcante para mim ter vindo ao ADRO.”

O seu rosto, segundo quem acompanhou, mostrava exactamente isso: surpresa, emoção e gratidão. Um reconhecimento que não foi apenas formal — foi vivido como sinal de pertença e compromisso renovado.

O SÁBADO À NOITE: O TERÇO COMO ÁPICE ESPIRITUAL

Perguntada sobre os pontos altos do ADRO, a dirigente foi clara: o momento mais marcante foi o Terço do sábado à noite, pela forma como foi organizado e pela força espiritual do ambiente.

Ela afirma que espera ver essa dinâmica replicada nas dioceses — não como evento isolado, mas como prática constante:

  • rezar com método,
  • rezar com comunidade,
  • rezar com identidade,
  • rezar com continuidade.

Para a Chefe Catarina, este é o coração do ADRO: não apenas reunir, mas ensinar a rezar e sustentar a fé no quotidiano.

Um horizonte sereno: “Avançar sem medo”

O ADRO encerrou, mas a dirigente não fala em fim. Fala em caminho. Ao ser questionada sobre o próximo ADRO (projectado para daqui a dois anos), deixou uma frase simples e poderosa:

“Se até lá tivermos saúde, não tem problema. O nosso lema é avançar sem medo.”

É uma síntese perfeita do espírito que ela carrega: longa experiência, realismo, e confiança.

Conclusão

O testemunho da Chefe Catarina Jordão Sales revela, ao mesmo tempo:

  • memória institucional (31 anos de movimento),
  • sensibilidade pastoral (assistência como chave),
  • método educativo (liderança próxima e inteligente com caminheiros),
  • e renovação espiritual (o Terço, a Profissão de Fé, a pertença).

Benguela levou ao ADRO a sua história e as suas feridas; regressa agora com uma direcção mais clara: assistência presente, identidade firme e espiritualidade viva.

E, como disse a Chefe, com o coração já no caminho: avançar sem medo.

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