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ENTRE CONTAS, FÉ E LUZ: A OFICINA DOS TERÇOS QUE MARCOU O ADRO 2026

Irmã Aurora, Assistente do Agrupamento 9, da Paróquia de Santo António (Arquidiocese de Luanda), testemunha o despertar espiritual vivido pelos jovens do ADRO

Texto – Alexandre Cose | Leão Manso

Havia algo de diferente naquela oficina. Entre fios de macramê, missangas coloridas, medalhas e crucifixos, formava-se muito mais do que um simples objecto de oração. Formava-se consciência, pertença e identidade.

Durante o ADRO 2026, a Oficina dos Terços tornou-se um dos espaços mais procurados pelos cerca de 500 participantes vindos de quase todas as dioceses de Angola (com exceção de São Tomé). À frente da actividade esteve a Irmã Aurora, Assistente do Agrupamento 9, da Paróquia de Santo António, Vigararia de Santo António, da Arquidiocese de Luanda. E nem ela própria esperava o que aconteceu.

“Não esperava tanto entusiasmo”, disse.

No início, a adesão parecia dentro do normal. O primeiro grupo reuniu cerca de vinte participantes. Mas algo começou a mudar rapidamente.

Os jovens que aprendiam regressavam aos seus grupos e partilhavam a experiência. Outros aproximavam-se curiosos. Caminheiros e dirigentes começaram a aparecer fora das inscrições formais, desejosos de também fazer o seu próprio terço.

“Foi uma experiência impressionante. Não esperava que gostassem tanto. Todos queriam produzir o seu próprio terço.”

O material esgotou-se. Fio de macramê, missangas, letras com a marca do ADRO e da AECA, medalhas e crucifixos desapareceram rapidamente das caixas organizadas com antecedência.

Mas ali não se estava apenas a montar contas.

APRENDER O TERÇO… E COMPREENDER O ROSÁRIO

A oficina não foi apenas prática manual. A Irmã Aurora e a Irmã Emília fizeram questão de explicar aos jovens:

– O que é o Santo Rosário;
– Como surgiu na história da Igreja;
– A importância da oração mariana;
– Como rezar corretamente;
– O significado dos mistérios.

Houve teoria. Houve silêncio. Houve partilha.

Para muitos jovens, foi a primeira vez que compreenderam verdadeiramente a estrutura do terço que tantas vezes seguraram nas mãos sem conhecer a sua riqueza espiritual.

O MOMENTO DO “TERÇO MONTADO

O ponto alto veio no sábado, no final da tarde, com o chamado “terço montado”.

Uma parte significativa dos participantes rezou usando os terços que haviam acabado de produzir. O gesto simples ganhou uma dimensão simbólica profunda.

“Isso cria uma relação muito mais íntima com a oração”, explicou a religiosa.

Não era apenas rezar. Era rezar com algo que tinham construído com as próprias mãos.

Para muitos, aquele momento ficará na memória como uma das experiências mais marcantes do ADRO.

“O Acaterço fazia falta”

Num contexto em que, nas redes sociais, alguns chegaram a reduzir o movimento à expressão depreciativa “acaterços”, a experiência vivida no ADRO deu outra leitura à expressão.

A oficina mostrou que a oração não empobrece o escutismo — enriquece-o.

“O Acaterço fazia falta”, afirmou a Irmã Aurora.

Mas fez questão de esclarecer: o ADRO não foi apenas isso.

“Aqui não aprendemos só a fazer o terço. Foi ACA-TUDO.”

Aprendeu-se a produzir hóstias, a compreender a liturgia, a organizar atividades, a viver a fraternidade, a assumir a identidade católica com serenidade.

AMOR A MARIA SEM VERGONHA

Algo que tocou profundamente a religiosa foi perceber o carinho sincero dos jovens por Nossa Senhora.

“Os meninos amam a Maria.”

A invocação a Mamã Muxima, padroeira, não foi um detalhe periférico do encontro. Foi expressão viva da identidade espiritual do movimento.

Para a assistente do Agrupamento 9, não se trata de exagero devocional, mas de coerência:

“Não podemos ter um acampamento sem invocar a Mãe de Deus. Faz parte de nós.”

Uma experiência que vai continuar

Talvez um dos frutos mais importantes da oficina esteja no que ainda vai acontecer.

Vários caminheiros aprenderam rapidamente a técnica e começaram, ali mesmo, a ensinar outros colegas. Muitos prometeram replicar a experiência nos seus agrupamentos e dioceses.

A ideia do ADRO — multiplicar localmente o que foi vivido nacionalmente — encontrou na Oficina dos Terços um exemplo concreto.

O Kinaxixi foi, por alguns dias, a capital do Escutismo Católico em Angola. Mas agora a missão regressa às dioceses.

Entre miçangas e orações, ficou uma certeza:

Espiritualidade e escutismo não se opõem. Complementam-se.

E, como se ouviu no final, entre sorrisos e entusiasmo:

“Não é só Acaterço. É identidade.”

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