
No encerramento do ADRO 2026, perante mais de 500 escuteiros reunidos em Luanda, Dom Belmiro Cuica Chissengueti dirigiu uma firme e clara chamada de atenção aos assistentes espirituais e sacerdotes: a vida escutista não pode continuar sem presença constante, acompanhamento responsável e compromisso efectivo. O Assistente Nacional da AECA sublinhou que a assistência permanente é condição indispensável para a maturidade espiritual do movimento e para a fidelidade à sua identidade católica.
Texto: Alexandre Cose | Leão Manso
Luanda, 15 de Fevereiro de 2026 –, Perante mais de 500 participantes reunidos no Colégio São José de Cluny, em Luanda, Dom Belmiro Cuica Chissengueti, Assistente Nacional da Associação dos Escuteiros Católicos de Angola (AECA) e Presidente da Comissão Episcopal da Juventude, Vocações, Pastoral Universitária e Escutismo da CEAST, proferiu, no Domingo 15 de Fevereiro, uma homilia de forte densidade pastoral, formativa e institucional, marcando o encerramento espiritual do ADRO 2026.
A celebração constituiu não apenas um momento litúrgico, mas também uma verdadeira aula pastoral sobre identidade, responsabilidade e futuro do escutismo católico em Angola.
A CRISE COMO BÊNÇÃO E OCASIÃO DE MATURIDADE
Dom Belmiro iniciou a sua reflexão reconhecendo que os tempos de crise, embora desafiadores, são ocasiões providenciais para purificar intenções, clarificar caminhos e fortalecer compromissos.
Segundo o Bispo, uma das fragilidades históricas da vida escutista foi a assistência espiritual irregular e pouco consistente em várias dioceses. Muitos sacerdotes e agentes pastorais fizeram promessas formais, mas não as viveram de forma continuada no acompanhamento quotidiano do movimento.
Por isso, renovou publicamente o compromisso dos sacerdotes presentes, apelando a uma presença constante, orientadora e actuante nas actividades escutistas:
- Participação efectiva nos acampamentos;
- Permanência nas actividades nocturnas;
- Acompanhamento regular das secções;
- Formação contínua na mística escutista.
O ministério sacerdotal, recordou, realiza-se na gratuidade e na generosidade, servindo o povo sem esperar retribuição.
IDENTIDADE CATÓLICA: pertença consciente e coerente
Num dos momentos mais significativos da homilia, Dom Belmiro abordou a questão da identidade religiosa do movimento.
Recordou que a Igreja Católica é mais do que um espaço de socialização: é caminho de salvação. Por isso, a pertença à Igreja não pode ser tratada como elemento secundário ou negociável.
Alertou para o risco do relativismo religioso, onde “tudo serve” e onde se perde a clareza de identidade.
Reafirmou que:
- A AECA é um movimento da Igreja Católica;
- A obediência aos Bispos integra a fidelidade à fé;
- A unidade nunca pode significar dissolução de identidade.
Explicou que toda decisão tem consequências. A saída de determinadas estruturas nacionais implicou consequências institucionais concretas, assumidas com consciência. Do mesmo modo, qualquer afastamento da Igreja implica consequências pastorais.
A sua intervenção não foi de confronto, mas de clarificação: fidelidade implica coerência prática.
DIRIGENTES: EDUCADORES DE FÉ E GUARDIÕES DA PROMESSA
Dirigindo-se aos dirigentes, Dom Belmiro sublinhou que não basta organizar actividades. É necessário educar consciências.
Apelou para que os dirigentes:
- Visitem as famílias dos escuteiros;
- Reúnam regularmente com os encarregados de educação;
- Expliquem o sentido da promessa escutista;
- Vivam exemplarmente a fé nas celebrações;
- Sejam os primeiros a chegar e os últimos a sair.
Recordou que a promessa escutista começa com a referência a Deus, à Igreja e à Pátria, estabelecendo uma hierarquia de valores que deve ser compreendida e vivida.
O dirigente não é apenas animador de grupo; é testemunha, educador e guardião da identidade.
CAMINHEIROS: maturidade e convicção pessoal

Aos caminheiros, última etapa da formação juvenil, Dom Belmiro dirigiu uma palavra exigente e encorajadora.
Reconheceu que muitos sofreram com as recentes divisões, vendo companheiros afastarem-se. Contudo, sublinhou que a vida é também escola de discernimento.
Chamou-os a desenvolver convicções pessoais sólidas, lembrando que a fé não é negociação.
Quando perguntados “Credes?”, a resposta é pessoal: “Sim, creio.”
Explicou ainda que, diante de qualquer tensão entre pertenças, a promessa baptismal precede todas as outras, pois fundamenta a identidade cristã.
Organização estrutural e consolidação institucional
A homilia incluiu também orientações concretas sobre a organização interna do movimento.
Entre os pontos destacados:
- Implementação do SIGECA (Sistema Integrado de Gestão dos Escuteiros Católicos de Angola), que permitirá registo individual digitalizado;
- Uniformização controlada da produção e distribuição de uniformes;
- Centralização institucional para evitar informalidade e dispersão;
- Transparência no censo anual e na gestão dos recursos;
- Consolidação da sede nacional na CEAST.
Estas medidas visam fortalecer a credibilidade, a organização e a sustentabilidade do movimento.
Pedagogia do “aprender fazendo”
Dom Belmiro valorizou as oficinas realizadas durante o ADRO, particularmente a produção das hóstias e as dinâmicas comunitárias.
Explicou que o método escutista forma consciência:
- Consciência litúrgica;
- Consciência comunitária;
- Consciência económica;
- Consciência de responsabilidade.
Ao fabricar a hóstia, o jovem compreende o esforço invisível por detrás da liturgia. Ao pintar uma parede, compreende o valor do cuidado comunitário.
O escutismo, assim, não forma apenas competências técnicas, mas consciência moral e espiritual.
Reconhecimento público e cultura de gratidão
Num gesto significativo, Dom Belmiro agradeceu publicamente à Chefe Arieth Van-Dúnem (Chefe Vária), responsável pela coordenação do ADRO 2026, reconhecendo o trabalho, a dedicação e o sacrifício pessoal envolvidos na organização.
Destacou também o apoio da Coordenação Nacional e dos dirigentes diocesanos, reforçando a importância da cultura de reconhecimento enquanto as pessoas estão vivas e em missão.
Evangelho e exigência interior
Na parte final da homilia, comentando o Evangelho do Domingo, Dom Belmiro recordou que Jesus não apenas proíbe matar fisicamente, mas também matar através da intriga, da fofoca, da inveja ou do bullying.
Chamou à vigilância interior, sublinhando que o pensamento precede a acção e que a verdade deve libertar.
A justiça cristã deve superar a mera observância formal, exigindo coerência interior e maturidade espiritual.
Um marco de consolidação
A homilia do Domingo 15 de Fevereiro ficará registada como um dos momentos estruturantes do ADRO 2026.
Mais do que uma exortação espiritual, foi uma clarificação estratégica do caminho que a AECA escolheu trilhar:
- Fidelidade à Igreja;
- Organização sólida;
- Formação integral;
- Responsabilidade histórica.
O ADRO encerra assim não apenas como encontro de espiritualidade, mas como momento de reafirmação identitária e consolidação institucional do escutismo católico angolano.



