
Gilberto Gil Lopes e Carla Romero defendem formação contínua, exemplo pessoal, espiritualidade e conhecimento das diferentes etapas de desenvolvimento dos jovens como elementos essenciais da missão do dirigente escutista
A Pivot da Associação dos Escuteiros Católicos de Angola (AECA) colocou no centro da sua primeira gravação-piloto no novo estúdio de podcast uma questão essencial para a sua missão educativa: que dirigente é necessário para acompanhar os jovens de hoje?
A conversa de Cristiana Neves mobilizou o Coordenador Nacional da AECA, Chefe Gilberto Gil Lopes, e a responsável do Secretariado para a Comunicação e Imagem, Chefe Carla Romero, num exercício realizado para testar o novo espaço de produção audiovisual da Associação.
Num diálogo que percorreu temas como tecnologia, educação, formação, espiritualidade, comportamento juvenil e responsabilidade dos adultos, os dois dirigentes convergiram numa ideia central: ninguém pode educar verdadeiramente sem estar disposto a aprender, a dar exemplo e a conhecer aqueles que pretende acompanhar.
A tecnologia também faz parte do mundo dos jovens
A conversa começou por reconhecer a importância que as tecnologias assumiram na educação e na vida quotidiana.
Recordando o período da Covid-19, os intervenientes observaram que foi precisamente a Internet que permitiu a continuidade de muitas actividades escolares e formativas, chamando a atenção para a necessidade de os adultos compreenderem e acompanharem as transformações tecnológicas.
O Chefe Gilberto Gil Lopes recordou que a resistência ao novo não começou com a Internet. O livro, a cadeira, o garfo e muitas outras ferramentas foram, em determinado momento da história, tecnologias novas.
A questão, defendeu, não deve ser simplesmente rejeitar a tecnologia, mas preparar dirigentes e jovens para a compreender e utilizar de forma responsável.
“Ninguém dá o que não tem”
Questionada sobre o que significa ser um bom dirigente católico, a Chefe Carla Romero começou por afastar a ideia de que alguém possa considerar-se um dirigente acabado.
“Eu não te posso dizer que nós conseguimos ser um bom dirigente. Nós temos que tentar todos os dias ser.”
Para a responsável, um dirigente deve assumir seriamente a sua formação contínua, porque “ninguém dá o que não tem”.
Além de líder, o dirigente assume diferentes papéis no acompanhamento dos jovens: educador, formador e, em determinados momentos, uma presença próxima capaz de acolher, proteger e orientar.
Carla Romero destacou igualmente a dimensão espiritual desta missão. “Nós sem Deus não somos nada”, disse.
Na sua perspectiva, o dirigente católico deve procurar conhecer e viver a sua fé, participar na comunidade e transmitir, através do comportamento, valores como respeito, convivência e responsabilidade.
Cada criança chega com uma história diferente
Outro aspecto destacado na conversa foi a diversidade das crianças e jovens que chegam ao Escutismo.
Carla Romero chamou a atenção para o facto de cada criança trazer consigo uma educação, um contexto familiar, uma personalidade e uma maneira própria de interpretar aquilo que recebe.
Por isso, o dirigente precisa de preparação para compreender diferentes comportamentos e encontrar formas adequadas de acompanhar cada jovem. A própria experiência de maternidade, explicou, influencia a sua maneira de olhar para os escuteiros.
“Eu vejo os escuteiros como filhos. Há vezes que vejo como filhos, porque, se toca a eles, toca-me.”
Mas a experiência pessoal, acrescentou, deve ser complementada pelas ferramentas adquiridas através da formação escutista.
“A maior educação está no exemplo”
O Chefe Gilberto Gil Lopes colocou o exemplo pessoal no centro do perfil do dirigente. “O dirigente deve ser um exemplo. A maior educação está no exemplo.”
Segundo o Coordenador Nacional, aquilo que o dirigente faz diante dos jovens pode ser pedagogicamente mais forte do que aquilo que simplesmente lhes diz para fazer.
Se o dirigente entra numa igreja, reza, respeita os espaços sagrados e vive coerentemente a sua fé, explicou, essa atitude também educa o escuteiro que o observa.
Por essa razão, considerou contraditório exigir dos jovens práticas religiosas que o próprio dirigente não procura viver. “Eu não posso dizer que os escuteiros devem ir à Missa e o dirigente não vai à Missa”, disse.
O mesmo princípio, acrescentou, aplica-se ao conhecimento e vivência dos sacramentos e à formação religiosa de quem assume responsabilidades educativas no âmbito do Escutismo Católico.
Conhecer a idade para compreender o comportamento
A conversa avançou ainda para um dos aspectos mais práticos da formação do dirigente: conhecer as características de cada etapa do desenvolvimento da criança e do jovem.
Gilberto Gil Lopes defendeu que quem acompanha um Castor, um Lobito, um adolescente ou um Caminheiro precisa de perceber como cada idade pensa, pergunta, descobre o corpo, estabelece relações e procura respostas.
Esse conhecimento evita interpretações precipitadas de comportamentos naturais de determinada fase do desenvolvimento.
No caso dos jovens mais velhos, a relação de confiança torna-se igualmente determinante. Um Caminheiro, exemplificou, pode procurar o dirigente para conversar sobre namoro, afectividade ou sexualidade.
Se o adulto transformar automaticamente esses assuntos em tabu, advertiu, poderá perder uma oportunidade importante de acompanhamento.
Um dirigente preparado para a realidade dos jovens
A reflexão deixa, assim, uma exigência muito concreta para a formação de adultos na AECA: o dirigente católico precisa de conjugar fé, conhecimento, equilíbrio, capacidade de escuta e formação permanente.
Não basta conhecer técnicas escutistas. É necessário compreender pessoas.
Não basta ensinar valores. É necessário vivê-los.
E não basta estar diante dos jovens. É preciso estar preparado para os acompanhar nas diferentes etapas da sua caminhada.
A gravação integra os testes realizados no novo estúdio de podcast da Associação dos Escuteiros Católicos de Angola, concebido para ampliar a produção de conteúdos sobre Escutismo, juventude, educação, fé, família e sociedade.
É mais um passo para que a AECA possa levar as suas reflexões para além das actividades presenciais e criar novos espaços de diálogo com os próprios escuteiros, famílias, educadores e sociedade.
Texto: Alexandre Cose | Leão Manso
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