
A formação promovida pela Associação dos Escuteiros Católicos de Angola — AECA, em Luanda, entrou neste Sábado, 30 de Maio, no seu último dia, com uma abordagem mais interna, após a conclusão da etapa orientada pelos formadores estrangeiros da World Federation of Independent Scouts — WFIS.
Neste novo momento, as duas turmas convergiram para um espaço comum de alinhamento, reflexão e consolidação dos conteúdos, com o objectivo de harmonizar procedimentos e preparar os participantes para a aplicação prática dos conhecimentos nas dioceses, zonas, regiões, paróquias, agrupamentos e comunidades.
O primeiro módulo do dia foi orientado pelo Chefe José Fortuna, Secretário Nacional para a Formação do Adulto, que abordou o tema “Missão, valores e identidade do escutismo católico”.
Na abertura da sua intervenção, o Chefe José Fortuna saudou a presença, o empenho e a dedicação dos participantes, sublinhando que o processo de formação é exigente, mas deve ser vivido com alegria, dinamismo e espírito de serviço.
Segundo referiu, o escutismo não deve ser entendido como uma experiência pesada ou excessivamente cansativa. Quando uma actividade escutista se torna demasiado cansativa, é necessário parar, avaliar os procedimentos, reflectir sobre os métodos utilizados e reencontrar o verdadeiro sentido educativo do movimento.
Durante a sessão, o formador apresentou a Política de Adultos no Escutismo Católico, documento aprovado no encontro realizado em Viana, em 2025, e publicado através de circular oficial datada de 28 de Outubro de 2025.
O Chefe José Fortuna chamou a atenção dos participantes para a importância de utilizarem documentos oficiais, devidamente assinados e reconhecidos pelas estruturas competentes da associação, evitando confusões provocadas por versões incompletas, não assinadas ou desactualizadas que possam circular informalmente.
A política apresentada estrutura-se em áreas fundamentais, como os fundamentos e princípios do escutismo católico, a missão do adulto no movimento, as fases de formação, os níveis de progressão, os perfis e intervenientes no processo formativo, a integração com o programa educativo, a ética, a protecção da criança, a avaliação e a implementação.
O formador explicou que a Política de Adultos visa orientar o processo de recrutamento, formação, acompanhamento e reconhecimento dos adultos no escutismo. O objectivo é garantir que cada dirigente desenvolva competências técnicas, humanas e espirituais adequadas à função que desempenha.
Um dos pontos centrais da aula foi a afirmação de que o carácter é inegociável no escutismo católico. O Chefe José Fortuna advertiu que não se devem recrutar adultos com dificuldades sérias no plano ético ou moral, esperando que o escutismo venha a corrigi-los.
Segundo explicou, o adulto chamado ao serviço escutista deve possuir sólida formação moral e cristã, maturidade humana, sentido de responsabilidade, equilíbrio e capacidade de testemunhar os valores do movimento perante crianças, adolescentes e jovens.
A intervenção destacou ainda as fases do percurso do adulto no escutismo: chamamento e discernimento, enriquecimento e missão, e serviço e testemunho. Estas fases ajudam a compreender que o adulto entra no movimento por vocação de serviço, é formado para uma missão concreta, deve ser acompanhado no desempenho das suas funções e, no final de cada ciclo, avaliado e reconhecido.
O Chefe José Fortuna explicou que o recrutamento de adultos deve partir sempre da identificação real das necessidades do agrupamento. Antes de convidar alguém, a direcção deve saber que vagas existem, que funções precisam de ser preenchidas e que perfil é adequado para cada missão.
Neste sentido, alertou contra a prática de recrutar adultos sem função definida ou apenas para preencher espaços. Segundo sublinhou, a presença de adultos sem missão clara pode gerar confusão, conflitos e dificuldades de gestão.
Outro aspecto abordado foi a gestão colegial dos agrupamentos. O formador explicou que a direcção do agrupamento deve integrar o chefe do agrupamento, o adjunto, o assistente, o secretário, o tesoureiro e os chefes de unidade. As decisões devem resultar do funcionamento responsável deste órgão, e não depender apenas de uma pessoa.
A aula aprofundou também o Plano Pessoal de Desenvolvimento Escutista — PPDE, apresentado como instrumento essencial para que cada adulto identifique as suas necessidades de crescimento, formação e apoio. O PPDE permite ao dirigente reconhecer as áreas em que precisa de melhorar e assumir responsabilidade pelo seu próprio progresso.
O Chefe José Fortuna sublinhou ainda a importância da formação contínua. Mesmo depois de investido e nomeado, o adulto deve continuar a participar em experiências formativas, cursos, encontros e actividades que o ajudem a desempenhar melhor a missão que recebeu.
O formador destacou que o chefe do agrupamento e a respectiva direcção têm a obrigação de apoiar os adultos no exercício das suas funções. Nomear alguém para uma tarefa sem acompanhamento, apoio ou orientação não corresponde ao espírito da política de formação.
Outro ponto importante foi a necessidade de distinguir a opinião pessoal do formador da orientação oficial da associação. Segundo o Chefe José Fortuna, o formador pode partilhar a sua experiência, mas deve deixar claro quando está a transmitir a política aprovada pela associação. Esta distinção evita personalismos, interpretações erradas e confusões na aplicação dos documentos.
No domínio das áreas de missão, foram destacadas a área pedagógica, a área administrativa, a área litúrgica, a área de turismo espiritual e a área do programa de jovens. O formador chamou a atenção para a importância de respeitar a vocação, a competência e o perfil de cada adulto, evitando colocá-lo em funções para as quais não tem preparação ou motivação.
A sessão abordou igualmente o dever solidário na formação. O Chefe José Fortuna recordou que quem aprende deve partilhar o conhecimento com os outros. O saber escutista não deve ser guardado como privilégio pessoal, mas colocado ao serviço da comunidade, para fortalecer os agrupamentos e ajudar outros dirigentes a crescer.
Durante o momento de perguntas, os participantes levantaram questões relacionadas com o carácter dos adultos já integrados no movimento, a validade dos documentos oficiais, a formação de catequista para dirigentes e formadores, o enquadramento de adultos sem domínio da leitura e escrita, a nomeação para funções e a organização temporal dos módulos formativos.
Em resposta, o Chefe José Fortuna reiterou que o carácter permanece inegociável e que as situações problemáticas devem ser encaminhadas aos órgãos competentes, começando pela direcção do agrupamento. Confirmou ainda que dirigentes e formadores devem possuir formação adequada à identidade católica do movimento.
Com este módulo, a AECA reforçou que a missão, os valores e a identidade do escutismo católico dependem de adultos bem formados, eticamente responsáveis, espiritualmente preparados e comprometidos com a educação integral das novas gerações.
A sessão deixou uma mensagem essencial: o escutismo católico não se afirma apenas pelo uniforme ou pelas técnicas escutistas, mas pela missão de educar, servir, proteger e testemunhar os valores cristãos na vida concreta dos agrupamentos, das paróquias e das comunidades.
Texto e imagem: Alexandre Cose | Leão Manso



